Enquanto calça as meias de cordanito, ti Maria da Serradinha vai pensando no que tem que comprar para a sua filharada. Para os moços já sabe que tem mesmo que comprar o cotim oficial para um par de calças para cada um. As camisas ainda tem atamanco com os habituais remendos e com um clarinho novo, ficam boas por mais algum tempo. A Maria tem preciso de alguns novelos de linha para fazer a renda do seu enxoval e as meias domingueiras. A Tóina precisa dum lenço para a cabeça. Se o ti Zei do Otêro tivesse por lá uma lãzinha cardada até podia ser que comprasse um corte para as saias das moças. O dinheiro da venda do milho tem que ser muito bem orientado para chegar para tanta precisão.
Da rua chega a lenga-lenga habitual do seu Zei Maria a bruchar o macho. Já sabe que tem que se apressar, o seu homem não gosta de esperar, o tempo é sempre pouco para os muitos afazeres que tem a seu cargo.
Olha os sapatos, já gastos que estão debaixo da cadeira e pensa que precisava de passar pelo Zei Nesga para mandar fazer uns sapatos, mas para não serem tão pesados não os queria cardados.
Foi ao calçar-se que tudo aconteceu, só não morreu de susto porque não calhou. Ao enfiar o pé no sapato encontrou algo que não dava espaço para o seu pé, intrigada espreita o que poderia estar lá dentro. Os seus olhos cansados pousam no seu grande inimigo. Uma longa cobra que sentindo-se incomodada se encrespou e soprou o seu aborrecimento contra aquela desnorteada e incrédula mulher. Aos seus gritos todos acodem. Com a ajuda do ferrolho e muita sabedoria conseguem dominar a assanhada e perigosa intrusa.
Meias de cordanito – opacas e margeadas, feitas de algodão muito fino.
Cotim oficial – tecido fino e acinzentado, próprio para calças usadas muito bem vincadas.
Atamanco – arranjo
Lã cardada – lã muito fina e levemente felpuda
Bruchar – atrelar o carro no macho
Ferrolho – termo para espingarda
uma história por Zilia Jesus
11-01-08
30 de junho de 2008
24 de junho de 2008
Aves de Portugal
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Leituras
23 de junho de 2008
Uma longa amizade
Zé das Caliças irritado, afasta com a mão nodosa de artrite, a mosca que teimosamente insiste em pesquisar a sua pele rugosa e cansada.
-Então não querem lá ver esta safada! Levas uma cachaporrada!
Manel do Paço olha na direcção onde julga estar a mosca sem vida, nada vê, mas também não é muito importante esforçar as vistas por causa de uma mosca morta. Prefere orientá-las para o recinto do jardim onde a azafama é enorme na preparação das festas da aldeia. O silêncio instalou-se entre os dois amigos, cada um envolvido nos seus próprios pensamentos e recordações.
Nisto, vindo do nada, surge o Malhadinhas, de rabo hirto distribuindo marradinhas às pernas dos dois amigos ainda pensativos.
Os dois velhotes e o bichano envolvem-se em vínculos fluídos de afectos, como colectâneas vivas de prazeres e alegrias. O gato deixa-se invadir por uma lassidão profunda distribuindo “ronrons” ritmados. De olhos semicerrados, é envolvido por uma modorra de prazer e paz enquanto é afagado carinhosamente pelos seus dois amigos.
Os dois homens olham-se e sorriem. Foi o Manel do Paço que interrompeu o silêncio.
_ Ó Caliças Já viste este safado? Cada vez está mais meloso, acho que ele anda de Janeiro!
_ Talvez, talvez. Ó Manel tu ainda te lembras quando foi Janeiro?!
_Olha, olha, então achas que eu sou esquecido como tu?!
Os dois amigos riem-se das suas próprias brejeirices tardias e vão nos seus passinhos cansados até ao jardim, onde os preparativos para a festa estão já nos finais. Encontram pessoas conhecidas e forasteiros veraneantes, em procura de muita animação e divertimento constante. Em tempos também eles se divertiam até ao amanhecer de um novo dia. Agora, o cansaço dos anos obriga a ter contenção e lá vão eles, em passos curtos, até ás suas respectivas casas tranquilos e serenos como sempre.
uma história por Zilia Jesus
21-08-07
-Então não querem lá ver esta safada! Levas uma cachaporrada!
Manel do Paço olha na direcção onde julga estar a mosca sem vida, nada vê, mas também não é muito importante esforçar as vistas por causa de uma mosca morta. Prefere orientá-las para o recinto do jardim onde a azafama é enorme na preparação das festas da aldeia. O silêncio instalou-se entre os dois amigos, cada um envolvido nos seus próprios pensamentos e recordações.
Nisto, vindo do nada, surge o Malhadinhas, de rabo hirto distribuindo marradinhas às pernas dos dois amigos ainda pensativos.
Os dois velhotes e o bichano envolvem-se em vínculos fluídos de afectos, como colectâneas vivas de prazeres e alegrias. O gato deixa-se invadir por uma lassidão profunda distribuindo “ronrons” ritmados. De olhos semicerrados, é envolvido por uma modorra de prazer e paz enquanto é afagado carinhosamente pelos seus dois amigos.
Os dois homens olham-se e sorriem. Foi o Manel do Paço que interrompeu o silêncio.
_ Ó Caliças Já viste este safado? Cada vez está mais meloso, acho que ele anda de Janeiro!
_ Talvez, talvez. Ó Manel tu ainda te lembras quando foi Janeiro?!
_Olha, olha, então achas que eu sou esquecido como tu?!
Os dois amigos riem-se das suas próprias brejeirices tardias e vão nos seus passinhos cansados até ao jardim, onde os preparativos para a festa estão já nos finais. Encontram pessoas conhecidas e forasteiros veraneantes, em procura de muita animação e divertimento constante. Em tempos também eles se divertiam até ao amanhecer de um novo dia. Agora, o cansaço dos anos obriga a ter contenção e lá vão eles, em passos curtos, até ás suas respectivas casas tranquilos e serenos como sempre.
uma história por Zilia Jesus
21-08-07
21 de junho de 2008
Guia Prático da Auto-Suficiência
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Leituras
18 de junho de 2008
desfiar recordações
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Histórias da Zilia
Florinda Carriça, a custo dá mais um passinho miúdo e cauteloso. Estende as vistas ao longe, mesmo cansadas e enevoadas pelas cataratas a pedir operação urgente, vê o que não querer. Tanto que eu trabalhei nestes campos e agora está tudo a mato e abandonado!....Tudo isto era um primor.
O que será feito dos outros? Muitos já morreram, outros foram para casa dos filhos, fechados entre quatro paredes, longe de onde nasceram e viveram. Alguns ficaram na aldeia, como eu. Gosto de estar aqui na minha terra e, sentir o cheiro das estevas, ouvir a cegarrega das cigarras e ver o voar das borboletas. Na primavera dou sempre as boas vindas às minhas amigas andorinhas, que têm ninho no beiral da minha casinha. Muitos dizem-me que sou louca por gostar destas coisas simples e pequenas. Mas gosto mesmo a valer e ainda bem que o meu neto Dudu também gosta, assim como a minha nora, que diz: aqui respira-se ar puro.
Só me dói é ver e sentir o abandono dos campos, outrora cheios de vida, esperança e canseira. Trabalho duro e muita miséria, foi a minha vida. Florindinha, Florindinha…não sejas mal agradecida, olha que sempre foste saudável, tiveste muita sorte com o homem que escolheste e o filho!....É um tesouro. E o meu Joaquim?! Que saudades. Deixaste-me há já tanto tempo, mas estás sempre no meu coração. As recordações, as recordações!!! Meu grande maroto!!! Lembro-me muito bem, ainda namoriscaste a maluca da Bertelina! O que será feito dela? Ah, já me lembro, foi para França procurar vida melhor.
Bem! Olha chaparro, obrigado pela sombra que me deste. Já descansei, já vi os campos, devagar e com muito cuidado, vou para casa. Deve estar na hora das raparigas do centro de dia presentearem esta velhota com um rico almocinho.
uma história por Zilia Jesus
18-08-07
O que será feito dos outros? Muitos já morreram, outros foram para casa dos filhos, fechados entre quatro paredes, longe de onde nasceram e viveram. Alguns ficaram na aldeia, como eu. Gosto de estar aqui na minha terra e, sentir o cheiro das estevas, ouvir a cegarrega das cigarras e ver o voar das borboletas. Na primavera dou sempre as boas vindas às minhas amigas andorinhas, que têm ninho no beiral da minha casinha. Muitos dizem-me que sou louca por gostar destas coisas simples e pequenas. Mas gosto mesmo a valer e ainda bem que o meu neto Dudu também gosta, assim como a minha nora, que diz: aqui respira-se ar puro.
Só me dói é ver e sentir o abandono dos campos, outrora cheios de vida, esperança e canseira. Trabalho duro e muita miséria, foi a minha vida. Florindinha, Florindinha…não sejas mal agradecida, olha que sempre foste saudável, tiveste muita sorte com o homem que escolheste e o filho!....É um tesouro. E o meu Joaquim?! Que saudades. Deixaste-me há já tanto tempo, mas estás sempre no meu coração. As recordações, as recordações!!! Meu grande maroto!!! Lembro-me muito bem, ainda namoriscaste a maluca da Bertelina! O que será feito dela? Ah, já me lembro, foi para França procurar vida melhor.
Bem! Olha chaparro, obrigado pela sombra que me deste. Já descansei, já vi os campos, devagar e com muito cuidado, vou para casa. Deve estar na hora das raparigas do centro de dia presentearem esta velhota com um rico almocinho.
uma história por Zilia Jesus
18-08-07
17 de junho de 2008
As histórias de Zilia
Categorias:
Histórias da Zilia
Alguém que conheço escreve umas histórias deliciosas sobre gente da terra. Esse alguém chama-se Zilia e para meu encanto e, espero, de todos aqueles que passam pelo Trumbuctu, permitiu que aqui fossem publicadas. As imagens mentais que me surgem, ao ler cada história, transportam-me para o Alentejo profundo, cujos encantos estão tão bem descritos nestes contos.
Publicarei todas as semanas uma história, começando por hoje.
Publicarei todas as semanas uma história, começando por hoje.
13 de junho de 2008
12 de junho de 2008
Leituras
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Leituras


Com ilustrações lindas, este livro - Segredos e virtudes das plantas medicinais - tem sido um auxiliar precioso na identificação de espécies, no conhecimento das suas propriedades e uma inspiração para novos cultivos.
Ficha Técnica:
Selecções do Reader's Digest (1993), "Segredos e virtudes das plantas medicinais", Lisboa: Selecções do Reader's Digest
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