7 de julho de 2008

Ratazana esfomeada

Em criança, mesmo não tendo uma festa com prendas, mimos ou abundâncias desejava sempre a chegada do Natal. Nada disso havia, mas a referencia a esta data, considerada de festa, enchia-me de alegria e expectativa, podia ser que no sapatinho aparecesse um rebuçado ou um pequeno chocolate, ou talvez a tão desejada moeda de cinco tostões.
Muitas vezes se a fase da lua o permitia, matava-se no dia de Natal, o porco, que fornecia o alimento da família para todo o ano. Juntando a matança com o Natal, era mesmo uma grande festa, porque havia muitos convidados, familiares e vizinhos, todos eles alegres, brejeiros e muito conversadores, principalmente ao jantar, quando os afazeres eram menores e o vinho novo já tinha mostrado o efeito de euforia. Não tenho muitas recordações de Natal, porque nada havia para oferecer ou para encantar a fantasia das crianças, mas lembro-me de um Natal em que uma ratazana esfomeada nos roubou uma boa parte da perua, arranjada e postejada, guardada na arrecadação, onde ela (ratazana) trabalhou afincadamente até levar para os seus esconderijos, praticamente todo o nosso suposto manjar.

Chamou-se o Tareco e o Franjinhas, mas nada nem ninguém conseguiu descobrir a espertalhona. Só passados uns dias é que a gulosa farejou nova refeição numa armadilha preparada para ela.
Estava gorda e lustrosa, penso que o Tareco ficou um pouco confuso com aquele petisco – ratazana com sabor a perua?!...
Comeu com gosto e como todos os gatos, depois de comer, limpou os bigodes e foi dormir uma soneca.

uma história por Zilia Jesus
04-01-08

1 de julho de 2008

30 de junho de 2008

Uma cobra no sapato

Enquanto calça as meias de cordanito, ti Maria da Serradinha vai pensando no que tem que comprar para a sua filharada. Para os moços já sabe que tem mesmo que comprar o cotim oficial para um par de calças para cada um. As camisas ainda tem atamanco com os habituais remendos e com um clarinho novo, ficam boas por mais algum tempo. A Maria tem preciso de alguns novelos de linha para fazer a renda do seu enxoval e as meias domingueiras. A Tóina precisa dum lenço para a cabeça. Se o ti Zei do Otêro tivesse por lá uma lãzinha cardada até podia ser que comprasse um corte para as saias das moças. O dinheiro da venda do milho tem que ser muito bem orientado para chegar para tanta precisão.
Da rua chega a lenga-lenga habitual do seu Zei Maria a bruchar o macho. Já sabe que tem que se apressar, o seu homem não gosta de esperar, o tempo é sempre pouco para os muitos afazeres que tem a seu cargo.
Olha os sapatos, já gastos que estão debaixo da cadeira e pensa que precisava de passar pelo Zei Nesga para mandar fazer uns sapatos, mas para não serem tão pesados não os queria cardados.
Foi ao calçar-se que tudo aconteceu, só não morreu de susto porque não calhou. Ao enfiar o pé no sapato encontrou algo que não dava espaço para o seu pé, intrigada espreita o que poderia estar lá dentro. Os seus olhos cansados pousam no seu grande inimigo. Uma longa cobra que sentindo-se incomodada se encrespou e soprou o seu aborrecimento contra aquela desnorteada e incrédula mulher. Aos seus gritos todos acodem. Com a ajuda do ferrolho e muita sabedoria conseguem dominar a assanhada e perigosa intrusa.

Meias de cordanito – opacas e margeadas, feitas de algodão muito fino.
Cotim oficial – tecido fino e acinzentado, próprio para calças usadas muito bem vincadas.
Atamanco – arranjo
Lã cardada – lã muito fina e levemente felpuda
Bruchar – atrelar o carro no macho
Ferrolho – termo para espingarda

uma história por Zilia Jesus
11-01-08

24 de junho de 2008

Aves de Portugal



Ficha Técnica:
Bragança, D. Carlos de, (1985), "Catálogo Ilustrado das Aves de Portugal", Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda

23 de junho de 2008

A Ovelha Choné



Simplesmente adorável.
Para miúdos e graúdos como eu ":O)

Uma longa amizade

Zé das Caliças irritado, afasta com a mão nodosa de artrite, a mosca que teimosamente insiste em pesquisar a sua pele rugosa e cansada.
-Então não querem lá ver esta safada! Levas uma cachaporrada!
Manel do Paço olha na direcção onde julga estar a mosca sem vida, nada vê, mas também não é muito importante esforçar as vistas por causa de uma mosca morta. Prefere orientá-las para o recinto do jardim onde a azafama é enorme na preparação das festas da aldeia. O silêncio instalou-se entre os dois amigos, cada um envolvido nos seus próprios pensamentos e recordações.
Nisto, vindo do nada, surge o Malhadinhas, de rabo hirto distribuindo marradinhas às pernas dos dois amigos ainda pensativos.
Os dois velhotes e o bichano envolvem-se em vínculos fluídos de afectos, como colectâneas vivas de prazeres e alegrias. O gato deixa-se invadir por uma lassidão profunda distribuindo “ronrons” ritmados. De olhos semicerrados, é envolvido por uma modorra de prazer e paz enquanto é afagado carinhosamente pelos seus dois amigos.
Os dois homens olham-se e sorriem. Foi o Manel do Paço que interrompeu o silêncio.
_ Ó Caliças Já viste este safado? Cada vez está mais meloso, acho que ele anda de Janeiro!
_ Talvez, talvez. Ó Manel tu ainda te lembras quando foi Janeiro?!
_Olha, olha, então achas que eu sou esquecido como tu?!
Os dois amigos riem-se das suas próprias brejeirices tardias e vão nos seus passinhos cansados até ao jardim, onde os preparativos para a festa estão já nos finais. Encontram pessoas conhecidas e forasteiros veraneantes, em procura de muita animação e divertimento constante. Em tempos também eles se divertiam até ao amanhecer de um novo dia. Agora, o cansaço dos anos obriga a ter contenção e lá vão eles, em passos curtos, até ás suas respectivas casas tranquilos e serenos como sempre.

uma história por Zilia Jesus
21-08-07

21 de junho de 2008

Guia Prático da Auto-Suficiência



Ficha Técnica:
Seymour, John, (1988), "Guia Prático da Auto-Suficiência", S. Paulo: Martins Fontes Editora

18 de junho de 2008

desfiar recordações

Florinda Carriça, a custo dá mais um passinho miúdo e cauteloso. Estende as vistas ao longe, mesmo cansadas e enevoadas pelas cataratas a pedir operação urgente, vê o que não querer. Tanto que eu trabalhei nestes campos e agora está tudo a mato e abandonado!....Tudo isto era um primor.

O que será feito dos outros? Muitos já morreram, outros foram para casa dos filhos, fechados entre quatro paredes, longe de onde nasceram e viveram. Alguns ficaram na aldeia, como eu. Gosto de estar aqui na minha terra e, sentir o cheiro das estevas, ouvir a cegarrega das cigarras e ver o voar das borboletas. Na primavera dou sempre as boas vindas às minhas amigas andorinhas, que têm ninho no beiral da minha casinha. Muitos dizem-me que sou louca por gostar destas coisas simples e pequenas. Mas gosto mesmo a valer e ainda bem que o meu neto Dudu também gosta, assim como a minha nora, que diz: aqui respira-se ar puro.

Só me dói é ver e sentir o abandono dos campos, outrora cheios de vida, esperança e canseira. Trabalho duro e muita miséria, foi a minha vida. Florindinha, Florindinha…não sejas mal agradecida, olha que sempre foste saudável, tiveste muita sorte com o homem que escolheste e o filho!....É um tesouro. E o meu Joaquim?! Que saudades. Deixaste-me há já tanto tempo, mas estás sempre no meu coração. As recordações, as recordações!!! Meu grande maroto!!! Lembro-me muito bem, ainda namoriscaste a maluca da Bertelina! O que será feito dela? Ah, já me lembro, foi para França procurar vida melhor.

Bem! Olha chaparro, obrigado pela sombra que me deste. Já descansei, já vi os campos, devagar e com muito cuidado, vou para casa. Deve estar na hora das raparigas do centro de dia presentearem esta velhota com um rico almocinho.

uma história por Zilia Jesus
18-08-07

17 de junho de 2008

As histórias de Zilia

Alguém que conheço escreve umas histórias deliciosas sobre gente da terra. Esse alguém chama-se Zilia e para meu encanto e, espero, de todos aqueles que passam pelo Trumbuctu, permitiu que aqui fossem publicadas. As imagens mentais que me surgem, ao ler cada história, transportam-me para o Alentejo profundo, cujos encantos estão tão bem descritos nestes contos.

Publicarei todas as semanas uma história, começando por hoje.