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16 de março de 2012

o escuro de Outubro


O escuro de Outubro, palavras ditas pela Ti Maria Arsénio - como pediu para ser chamada - ao explicar-nos quando tinha semeado o cebolo. Estas palavras ecoaram cá dentro - o escuro que há dentro de mim. O escuro de Outubro é a passagem da lua nova para quarto crescente; enquanto explicava fazia acompanhar-se de gestos largos, apontando o lado em que a lua nascia, cheia, e o outro, oposto, em que no céu, negro, nada se via a não ser o escuro de Outubro. A sua linguagem era tão expressiva que me transportou para outro tempo, para um tempo antigo em que o homem lia nos astros, no vento, no escuro a melhor altura para as sementeiras. E senti-me na noite apesar de ser dia.

A conversa desenrolou-se ao mesmo tempo que ia desbastando o cebolo para me dar alguns pés, enquanto eu e a Zília, que me levou a conhecer esta senhora de quase oitenta e um anos, íamos tirando alguma erva da pequena leira. Finalmente percebi a diferença entre cebolo e cebola. Dizia ela que o cebolo é o pai da cebola. O cebolo nasce da semente de cebola e quando pronto é transplantado para depois dar a cebola. Trouxe mais de cem pés, semeados no escuro de Outubro, e agora transplantados quase no escuro de Março, que deverá ser lá para dia vinte e três.

   (♥) Paula

PS- Vou arranjar um gravador.

2 de junho de 2011

espiga


Hoje é o Dia da Espiga, m ritual de origens pagãs, celebrado na Quinta-Feira da Ascenção. Pela fresca vai-se para o campo apanhar ervas e espigas para compor o ramo. Há quem diga ainda que muitas das ervas selvagens, para fazer infusões, devem ser colhidas neste dia. Nós não fomos pela fresca mas o passeio foi igualmente bom e proveitoso no reconhecimento de ervas. Os nossos raminhos ainda serão completados com alecrim e videira. Foram quatro horas de passeio num dia muito quente, estou muito cansada Nos próximos dias escreverei sobre este passeio, o que aprendemos (e posso dizer-vos que foi muito) e outras histórias.

Até lá!
    ❀

1 de janeiro de 2011

a roçadora


Ao Sr. José, homem dos seus oitenta anos, a "sorte" bateu à porta. A reforma é curta, embora trabalhe desde pequenino. Dos dez filhos que teve, só as mulheres não trabalharam com ele e nenhum foi à escola. Primeiro era preciso colocar comida na mesa, depois, anos e anos no corte do eucalipto com muito frio e muita chuva. Um dia, à soleira da porta de sua casa, inesperadamente, recebe a visita de um estranho:

- "Bom dia!", diz o estranho, "O Sr. por acaso não sabe de alguém que queira fazer fazer aí um "trabalhinho"? É coisa pouca. Colocar uns marcos aqui pela herdade."

O Sr. José, encolhendo os ombros, diz:

-"Hum, não sei. Há por aí muita gente nova, não sei. Parece que trabalho não querem, calhando até faço eu."

O estranho, aflito por não conseguir ninguém que quisesse fazer o trabalho logo se apressou a dizer:

-"Então amanhã passo cá para lhe indicar o trabalho a fazer. Ah, já me esquecia! O Sr. tem uma roçadora?"

-"Sim, tenho."

- Ok! Não se esqueça dela amanhã porque vai ser precisa.

E assim foi. No dia seguinte, ao acercar-se do Sr. José o estranho perguntou:
- "Bom dia mestre Zé. Então vamos ao trabalho? Trouxe a roçadora?"

- "Bom dia!", respondeu ele, "Vamos embora!"

Quando olharam para a roçadora que o Sr. José trazia, o estranho e o seu ajudante arregalaram os olhos. Então aquilo é que era a roçadeira?!

29 de outubro de 2010

ao meio-dia


"Ao meio-dia ou carrega ou alivia", diz a D. Rosa.
Se ao meio-dia começar a chover cairá água toda a tarde ou alivia e o sol talvez espreite. Hoje carregou.

11 de outubro de 2010

a romã e a galinha


"Tempo de romã galinha vã"
Com o Outono vem a romã e com ele também a muda da pena das galinhas que deixam de pôr ovos.

9 de outubro de 2010

arco celeste


"Arco-celeste de manhã nem a ovelha enxuga a lã."

Se virmos o arco-iris de manhã choverá de tal forma que nem as ovelhas conseguiram secar o pêlo. Por aqui não vimos o arco-celeste mas chove a cântaros.
Desconhecia a expressão arco-celeste, acho uma delícia.

13 de julho de 2010

Zélia Sakai

Em tempos, quando o Lugar ao Sul ainda existia, ouvi uma entrevista de Rafael Correia com Zélia Sakai, uma conceituada conhecedora de plantas aromáticas e medicinais e autora de vários livros sobre o mesmo tema. Há dias cruzei-me novamente com o seu nome quando procurava informações sobre o pilriteiro. Encontrei o que procurava e muito mais ... informação preciosa sobre plantas aromáticas e medicinais da mesma autora.

Para quem tem interesse em aprender: Plantas Medicinais - Riqueza Natural e Plantas Medicinais na Saúde e na Beleza.

Nota: A Antena 1 para além de não se limitar a retirar do ar o Lugar ao Sul, programa de rádio de uma imensa riqueza humana, retirou igualmente todas as edições online outrora disponibilizadas. "Brilhante!", é mesmo o que se pretende de uma estação de rádio, ainda por cima pública.

29 de junho de 2010

com as mãos na terra


O truque do limão, ensinado pela Z., é deveras eficaz. Se não tivesse experimentado não acreditava. Basta esfregar bem as mãos com limão e ...

23 de junho de 2010

18 de junho de 2010

entrançar cebolas e alhos


A D. Rosa passou por cá quarta-feira e pedi-lhe para me ensinar a entrançar cebolas. Entretanto, apanhei algumas, embora antes do tempo, duma cama que ainda precisa de rega, pois de outra forma poderiam apodrecer. A rama está mais verde do que seca e temos de esperar para as poder entrançar. Ainda assim ela ensinou-me que cebolas e alhos secam-se à sombra de uma figueira para não cozerem. Logo que a rama estiver quase seca estão prontas para entrançar.  Como não podia fazer com as cebolas fui experimentar com os alhos. Da esquerda para a direita: 1ª, 2ª, 3ª e 4ª tentativas. Acho que com prática vamos lá.

24 de fevereiro de 2010

O sr. Abel partiu hoje...



❀ ❀ ❀
... e com ele toda a sua sabedoria de como tratar a terra e as culturas.
Fica o muito do que ele me ensinou.

21 de fevereiro de 2010

as árvores também choram


"As árvores também choram", disse-me a D. Noémia que veio cá no outro dia fazer uma enxertia nas ameixieiras. Achei linda esta a frase, ainda mais depois da explicação que ela deu. As enxertias devem ser feitas no período de repouso das árvores, quando a seiva ainda não corre, por esta altura do ano. Se for mais tarde, já perto da Primavera, a seiva em circulação brota e a árvore chora. Talvez por isso, nos passeios dados por aí, nunca tenha gostado de ver as feridas feitas nos troncos para se tirar a resina. Eram as árvores a chorar.

31 de maio de 2009

Sr. Pinela e o bando de pássaros tristes

Sr. António Pinela, alguém que, de entre muitos ofícios, observa o que o rodeia com imensa poesia. Nesta conversa com Rafael Correia, no Lugar ao Sul de 23 de Maio de 2009, fala no estado de alma dos pássaros, que agora andam mais tristes. Diz ele que os pássaros, antigamente, aquando das lavouras e sementeiras, corriam cantando atrás do tractor, alegres. Já nas lavouras seguintes, menos pássaros se viam e pareciam tristes.


De tanto passar o tractor na terra, rasgando-a, toda a vida do solo vai desaparecendo. A terra fica sem pele e os seres, que habitam o solo, sem protecção para sobreviverem. Os pássaros ficam tristes porque o alimento escasseia, até um dia deixar de haver pássaros e aí ... seremos nós que ficaremos tristes por já não os ouvir cantar.

Um dia destes vou conhecer o Sr. Pinela, e aprender a ver o romper da aurora e o brilho das estrelas.

23 de janeiro de 2009

Vai à fava....

...enquanto a ervilha cresce.


A fava e a ervilha

Um ditado popular que a minha mãe me ensinou. Quer dizer que podemos ir apanhar a fava ("ir à fava") enquanto a ervilha está a crescer.

A horta deste inverno ficou pelas favas e ervilhas, semeadas em Dezembro último, na tentativa de podermos colher e congelar. Se não der para o ano todo, pelo menos que dê para grande parte dele.

26 de abril de 2008

Sol cercado

"Quando o Sol vem cercado, ao fim de três dias é molhado"

disse a D. Celeste, uma senhora que toda a sua vida viveu num monte, perto do Cercal e que possui uma sabedoria de tantos anos a lidar com a terra; num dia como o de hoje, muito calor e nuvens altas no céu, explicou-nos que, quando vemos uma espécie de anel em volta do Sol ao fim de 3 dias chove.

O Euronews diz que até quarta não chove, mas a sabedoria popular fez viver muita gente quando ainda não havia previsão do tempo, televisão nem internet.