28 de fevereiro de 2010

Bolota

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Hoje foi o dia da Bolota partir, uma cadelinha amorosa.
Não era nossa mas era próxima e fomos hoje enterrá-la, eu e R. Também tem lugar no Trumbuctu, onde a vida e a morte se cruzam. Contar como foi, agora, pouco interessa mas faz-me reflectir sobre a forma como hoje se lida com a morte.

Quando os meus avós morreram, era miúda, lembro-me bem como foi. A imagem deles, no caixão, ainda está presente, e mesmo os momentos (dias) que antecederam a morte. Morreram em casa, junto da família e o velório durou três dias. Estiveram sempre acompanhados. Partiram em alturas diferentes, primeiro o meu avô, depois a minha avó, mas partiram de igual forma. "Acompanhados".

Quando o meu irmão morreu não foi assim e faltou-me esse tempo.

Hoje. Hoje morre-se num dia e é-se enterrado no outro rapidamente, se não no próprio dia, depende da hora da morte. Quase nunca se morre em casa e os corpos são velados em lugares frios e sombrios. Ficam sozinhos durante a noite, porque já ninguém fica acordado a velar os seus mortos. Deixámos de ter esse tempo, o do primeiro luto, da despedida e de deixar o momento da morte fazer parte da vida.

Com o meu avô e com a minha avó foi diferente. Guardo sagradamente essa memória e agradeço, embora fosse pequena, terem-me permitido viver esses dias. Sempre que possível, quando algum Ser morre perto de mim procuro que seja assim.
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7 comentários :

Alziro Patafisico disse...

Concordo absolutamente. Com o meu pai e meu irmão, os velórios foram em casa. Já minha mãe não.... acho mais humano e carinhoso os velórios caseiros...

Trumbuctu disse...

É, mais humano sim, algo que vai escasseando.
Obrigada pelo comentário.

Anónimo disse...

Estou totalmente de acordo com as reflexões que fazes sobre a morte. A mim também me impressiona
a pressa com que se lida com a morte. Como se a escondêssemos, para possivelmente pensarmos que assim adiamos a nossa própria morte. Tudo é feito com uma correria chocante. Também pensei, quando o Sr. Abel antes de morrer pediu para o levarem para casa, os vizinhos podiam ter dado assistência 2 horas cada um para acompanharmos o Sr. Abel, e ele teria morrido no seu ambiente natural. Mas as coisas não se passam assim infelizmente. Beijinhos e obrigada Júlia

Jelicopedres disse...

Hoje, tenho alguma dificuldade em falar sobre este tema...
Eu volto!
Teresinha*_*)

Trumbuctu disse...

Júlia, se os vizinhos fossem assim estaríamos num mundo ideal, e nem seriam precisas duas horas por dia, bastava uma e ele morreria em casa como queria. Vivemos num mundo imperfeito mas cheio de coisas perfeitas, como a natureza.

Teresinha, obrigada pela visita. Volte sempre que quiser, será muito bem vinda.

Luísa disse...

Obrigada por este post! Hoje em dia morremos como nascemos, longe da nossa casa...

Trumbuctu disse...

Nunca tinha pensado nisso, Luísa. Nascemos longe de casa há muito mais tempo do que morremos longe dela. Também é muito mais humano nascer em casa.