7 de agosto de 2011

Um feliz encontro...


by Sonya Padraigín

Já passaram muitos dias. Tantos, que já perdi a conta. Não sei por onde caminho, pois não reconheço este lugar. Nem reconheço os cheiros nem as pessoas. Sinto-me cansada…. Foi um dia normal como tantos outros dias. Acordei e passei-me pela casa, tentanto encontrar alguém acordado. Que estranho! – penso eu. Não está ninguém na cozinha??? Ouço vozes ao longe e aproximo-me lentamente. Descubro que a familia está reunida na sala de jantar, aparentando uma expressão tensa no rosto. Sussuram. Ouço falarem no meu nome. De que falarão?

Dirigo-me ao quintal, para o meu passeio matinal. Gosto de explorar todos os cantos porque sou muito curiosa! Será que as ervas já cresceram? Será que o gato, meu vizinho, veio outra vez comer a minha comida? Perdida nos meus pensamentos, ouço chamar o meu nome. Corro de encontro à minha familia. Passeio!!! Vou passear!!! O pai está com a minha trela na mão e eu sou esperta o suficiente, para entender que hoje é dia de brincadeira no parque. Não reconheci o trajecto que fizémos, mas sei que seguimos numa direcção oposta à do parque. Depois de algum tempo, pararam o carro. Abriram a porta e obrigaram-me a sair. Como mais ninguém saía do carro, eu teimava em não querer sair. Seria um mau pressentimento do que viria a seguir? Com um brusco empurrão, afastaram-me do veículo, que rapidamente se pos em movimento. Corri atrás do carro, atrás da minha familia. Corri até não poder mais. O carro afastou-se rapidamente e deixou-me ali sozinha…

Foi um dia que amanheceu idêntico aos dias anteriores. Esta noite choveu. Choveu e fez frio. O  cartão onde me deitei ficou ensopado e o frio gelou-me os ossos. Mais uma noite passada sem dormir…De noite, fico alerta e não durmo. São tantos os perigos, os barulhos estranhos, as sombras, que o meu instinto de sobrevivência me impede de dormir. Tenho tanta fome! Quero voltar para casa, para a minha caminha. Porque me abandonaram aqui? O que foi que eu fiz? Terei me portado mal?

Vagueio pela cidade, que finalmente parece ter despertado. Pessoas, carros, movimento. Várias pessoas olham para mim de soslaio. Algumas afastam-se, com receio de mim.
Vou explorando os caixotes do lixo, a esta hora já vazios, na esperança de encontrar o que comer. Ultimamente, o cansaço pesa-me o corpo. Pesa-me tanto, que me encosto a um canto para recuperar forças. Tento dormir um pouco para que o tempo passe mais depressa. Talvez assim custe menos. Talvez tudo isto não passe de um sonho mau. Talvez, se eu adormecer, acorde novamente na minha caminha. Talvez…

Dormi algumas horas e acordei sobressaltada. Deambulo pelas ruas da cidade, à procura da minha familia. Ultimamente descobri que o metro é um local de passagem de muitas pessoas. Tantas pessoas se cruzam comigo. E eu? Eu sinto-me invisivel. Depois de um bom par de horas à porta do metro, é tempo de procurar um local para pernoitar esta noite. Caminho, enfraquecida pela vida que tenho levado. Caminho, sem ter um destino certo. É então que a vejo. Será que ela também irá reparar em mim ou fingir que não me vê? Ela passou por mim e seguiu o seu caminho. Reparo que ela parou, do outro lado da estrada, a observar-me. Porque olha tanto para mim? Descubro que está à espera de me ver atravessar a estrada em segurança. Nós temos de ter muito cuidado. Os condutores pensam que nós estamos atentos e que nos desviamos dos carros em movimento. Mas, por estarmos tão enfraquecidos pela fome, pelo frio e pela tristeza que nos consome a alma, nem sempre somos perspicazes o suficiente para fugir aos carros. E tantas vezes damos o nosso último suspiro ali, deitados no asfalto….
Desvio-me a tempo, de um carro que vinha em velocidade, e chego em segurança ao passeio.
Ela. Ela continua a andar.

Sinto que ela reparou em mim e que está a atrasar o passo, propositadamente. Cada vez mais.
Cruzamos olhares. Nós, os cães, distinguimos quem gosta de nós só pelo olhar.
Ela gosta de mim!!! Tenho de fazer qualquer coisa para lhe chamar a atenção. E assim, aproveitei o momento em que ela parou para ler um qualquer papel afixado na montra de uma loja e fiz a única coisa de que me lembrei: deitei-me a seus pés.
Recordo-me da expressão preocupada que fez. Sentou-se no degrau de um prédio e eu deitei-me a seu lado, sem forças para me levantar, sem forças sequer para lhe mostrar como me sentia feliz por a ter encontrado. Observo-a de telemovel na mão. Parece angustiada e eu ouço-a a  contar o nosso encontro.
Com o desespero, começa a chorar. Aparecem algumas pessoas e a estória é repetida vezes sem conta.
Eu estou deitada porque me sinto cansada demais. Cansada de não comer. Cansada de não dormir. Cansada de viver. Para morrer, prefiro morrer nos braços de alguém que goste de mim. Não quero morrer na rua. Sozinha. Ela levanta-se e enxuga as lágrimas. Reparo que levanta o braço e açena para alguém. Um carro pára ao pé de nós. De dentro dele sai uma senhora. Reconheço a luz que emana dela! Como à pouco referi, nós, os cães, reconhecemos a bondade das pessoas. Ou a falta dela. E o olhar desta senhora é muito bondoso…Aproximou-se de mim, falou comigo, fez-me festas. Eu apenas consegui dar-lhe algumas lambidelas nas mãos.

Ouço-as a falarem, uma com a outra. A M. pega-me ao colo e leva-me para o carro. Eu vou sentadinha ao colo da S.. Não sei explicar mas sinto-me segura com estas pessoas. Por isso estou quietinha e até descanso o meu focinhito no braço da S. Chegámos a uma casa de familia. CASA! É bom pensar na ideia de ter um lar. De ter uma familia que goste de nós. A M. leva-me ao colo, porque me sinto cansada. A S. abre o portão e aparecem duas manas desvairadas que, com a surpresa de ver uma estranha no seu território, me atiram ao chão. Não me conhecem e estão desconfiadas. A mana maior atira-se a mim, e rebolamos as duas, entre os gritos assustados da M. e da S. Felizmente a M. consegue agarrar a mana grande e prende-a dentro de casa. Eu, assustada, salto para o colinho da S., onde me sinto em segurança.

Levam-me para dentro de casa e conduzem-me ao escritório. Estou assustada e sem forças. Deixo-me ficar prostada no chão. Passado alguns minutos, lá aparece a M. com a mana grande presa pela trela.
É tempo de apresentações! Cheiramo-nos, uma à outra, e tornamo-nos a cheirar. A mana grande parece desconfiada e persegue-me pelas divisões da casa, querendo me conhecer. Eu, deixo-me conhecer.
Vou-me ambientando. A mana pequenina gosta de mim e tenta brincar comigo. A mana grande já começa a abanar o rabito, enquanto teima em continuar a cheirar-me. Já não parece estar zangada. Mais tarde apareceu o D. e fez-me muitas festinhas. Também ele apresenta o tal brilho que só as pessoas de bem emanam. Sinto-me suficientemente segura para começar a explorar a casa. Até sou atrevida e tento ocupar um lugar bem pertinho da M. e do D. A mana maior parece não me ligar nenhuma. Estou quietinha. Enquanto os três conversam, eu deixo-me adormecer com a cabecinha pousada no joelho da S. Sinto-me segura.

Olha, uma cama!!! Como eu gosto de camas! Alguém está deitado na cama e eu aproximo-me em “patinhas de lã” para tentar subir para cima da cama. Não me deixam, é claro. Somos três meninas e cinco na cama já são uma multidão! A M., calculando que que queria mimo, põe um pé fora da cama para me tocar e me fazer sentir acompanhada. Eu, que sou muito travessa, aproveito o buraquito deixado pelo lençol levantado, e tento esgueirar-me para debaixo do lençol. Pouca sorte, a minha!. A M. não estava a dormir e teve de me afastar e me explicar que não podemos dormir todos na mesma cama. Assim, como sou uma menina bem comportada, deito-me junto da mesa de cabeceira e adormeço rapidamente. Sinto-me segura. Sinto-me feliz porque sei que estas pessoas são diferentes e gostam muito de mim.

Chega o dia seguinte. Acordo cheia de energia. A M. está a preparar-se para ir trabalhar, calculo eu. Prepara as nossas refeições da manhã e eu, como sou muito atrevida, tento ir comer a ração da mana pequena. A mana grande, zangada, mostrou-me a dentuça. Só então percebo que existe uma regra: a primeira a comer é a mana pequena, depois segue-se a mana grande e, por fim, estou eu.
Passei o dia a brincar e a disfrutar da relva e do sol. De vez em quando, lá vem a mana cheirona dar-me mais algumas cheiradelas. Todas nós reconhecemos o som do carro que está a estacionar. A M. chegou a casa! E vem acompanhada da S.! Assim que as duas abrem o portão, as três fazemos uma festa e mostramos a nossa alegria com muitas lambidelas e alguns saltos mortais pelo meio.
Depois de muitos saltos, muita festa e muitos beijinhos de todas nós as três, a M. coloca-me a trela e leva-me para o carro. Mais uma vez porto-me muito bem, sentadinha ao colo da S. Chegamos à clinica veterinária, onde a R. nos aguarda. Conduzem-me à doutora que, mais uma vez, recebe várias lambidelas minhas. Tenho muitas lambidelas para distribuir a quem as queira!

Ouço a doutora dizer que sou uma menina ainda pequenita. Terei cerca de um ano, ano e meio. Aparento estar bem tratada, apesar de estar a viver na rua. A doutora afirma que eu não devo estar à demasiado tempo na rua, porque aparento estar bem cuidada, ainda que cheia de pó. A doutora quer observar-me e eu atrapalho-a com os meus beijinhos. Limpam-me os ouvidos e tiram-me duas carraças. As carraças não são minhas manas porque me mordem. Prefiro que estejam longe de mim. Ufa!!! Que alivio!!! Dão-me um comprimido, que soube ser um desparasitante interno. Estou feliz e curiosa com tudo o que me rodeia. Se me deixassem, explorava toda a clínica! Mas não me deixam, é claro.

Regresso a casa com a M, a S. e a R. Rapidamente percebo que elas têm um objectivo em mente: dar-me um banho! Brrrrrrr! Não gosto nada de banhos e imagino que a água esteja fria. Nada disso.
Levam-me para a banheira e dão-me um banho com água quentinha. Ainda assim, e como não estou habituada à agua, são precisas as três para me segurarem, numa dança coordenada de mãos. Uma segura-me, outra esfrega-me com champoo, outra deita água quentinha. Rapidamente me apercebo que estas massagens são muito boas! E assim, deixo-me esfregar da cabeça à cauda. Hi, hi, hi, hi…sabe bem! Esfregam-me bem, falam comigo e suam as estopinhas! Pensando bem, eu diria que elas a três é que precisam de uma bela banhoca! Findo o banho, sinto um momento de silencio e uma troca de olhares entre as três. De repente, fogem todas da casa de banho. Estão a fugir, porquê? Eu quero continuar a brincar! Ahhhh, agora entendi. Estavam a fugir da molha extra que nós, cães, damos quando nos sacudimos! Regressam novamente à casa de banho e, sem me dar conta, sou envolta em toalhas. Secam-me e dão-me beijinhos. Estou lavadinha, sequinha e cheirosa. E feliz! Estou tão feliz!
À hora do jantar, a mana velha cheirona volta a ralhar comigo. Eu tenho de aprender a ser paciente e a esperar a minha vez. Desculpa! Não volto a ser atrevida!
Amanhece outro dia.

A M. e o D. preparam-se para ir trabalhar, rotina diária dos humanos.
O pequeno-almoço é novamente marcado por discussão. Eu continuo a ser impulsiva e a teimar em ser a primeira a comer. Eles não sabem o porquê! Na verdade, acho que tenho medo de ficar sem o que comer. Na rua, lá por onde vivi, tínhamos de nos apressar sempre que encontrávamos algum pedaço de alimento, não fosse aquele ser cobiçado por algum dos muitos animais errantes, como eu fui.
A mana maior decide que já é tempo de me educar. Tenho de aprender a respeitar o meu lugar na hierarquia da familia canina.

De volta à segurança de um lar, sinto a felicidade de ter uma familia.
Esta é uma estória verídica contada pela pessoa que me encontrou.
A felicidade por me terem encontrado não apaga a dúvida de, eventualmente, eu poder pertencer a alguém que me tenha perdido. Assim sendo, já estou colocada num anúncio, de animais encontrados.
Se a minha familia aparecer, terá de provar (e bem) os laços que nos unem.
Se ninguém aparecer para me reclamar, pouco me importa. Encontrei a minha familia.
A verdadeira familia é aquela que nos cria, nos educa, nos acarinha e nos dá amor. E esta eu já encontrei. Aqui, eu sou feliz.
Deram-me o nome de Zuky.

9 comentários :

Alziro Patafisico disse...

Que lindo isso, Maray, deu vontade de chorar. E que cãozinho fofo o da foto. Lindeza.

Alziro Patafisico disse...

Desculpa Paula, pelo nome errado. Eu ando assim meio louco...

cris disse...

:))) boa contadora de historias hehe gostei muito! obrigada pela partilha. fico muito feliz por voces e pela zuky *irie

Trumbuctu disse...

Está desculpado Júlio ";))

É mesmo uma história bem contada ":)) e de uma pessoa muito especial. Uma Zuky sortuda ";)

♥ para os dois

SusMar disse...

Que história de amor linda... e não é ficção, o que ainda lhe dá mais sabor!!!
Parabéns à Zuky, mas essencialmente à família pelo Coração Gigante!!!

horticasa disse...

Uma história linda, pena que já se vai tornado banal a história do abandono de animais... pelo menos esta acabou muito bem.
parabéns, bj eugénia

Rosarinho disse...

Que linda história :)

FM disse...

Um encontro com um final feliz, bem aja a que ama assim os animais!!!!!!! Sem palavras... A cadelinha é um amor como todos os animais, são anjos disfarçados, que alguns seres humanos reconhecem :)

Kastanon disse...

Parece uma cadela que estava na União Zoofila. Vou postar esta história no meu facebook